A moda que a gente quer é sustentável e coletiva

Publicado em 22 de setembro de 2020
* Por Cacá W. Camargo e Jajá Menegotto

Estamos em 2050. Os recursos naturais usados para indústria têxtil, de confecção e de acessórios estão escassos. As manchetes anunciam a morte da moda convencional, outrora baseada no consumismo e na obsolescência planejada. As empresas tradicionais, que não investiram em pesquisa e/ou em novos modelos de negócio, faliram. A sustentabilidade, que em 2020 era considerada uma tendência, agora é questão de sobrevivência. 

Quem sobreviveu? Somente as marcas que lá no passado entenderam a sustentabilidade como único caminho. É princípio, meio e fim. É coração, negócio e estratégia.

Parece apocalíptico, mas qual será o cenário se não buscarmos hoje alternativas de menor impacto ambiental? Como você imagina a moda e o mundo em 10, 20, 30 anos? Como o seu negócio tem projetado esse futuro?

Temos dito que a transição para modos mais sustentáveis é indispensável em um mundo com recursos finitos. Sem ela, não só a moda, mas a vida está ameaçada. 

futuro da moda sustentavel

Foto: Markus Spiske/Unsplash

A moda é reflexo da época, ela manifesta o espírito do tempo. E movimentos como Fashion Revolution, Friday for Future, Extinction Rebellion e tantos outros, demonstram que a moda convencional não faz e, definitivamente, não fará mais sentido num futuro próximo. 

O futuro é digital mas, principalmente, humano

Em meio à pandemia, temos visto muitas empresas investirem na digitalização dos seus negócios e sabemos que isso tem sido fundamental nesses tempos. Mas também precisamos refletir sobre o que será essencial para o “novo mundo”. Pensamos que as relações devem ser fortalecidas; a inovação, além de tecnológica tem que ser social; a sustentabilidade, em suas diferentes dimensões – ambiental, social, cultural, econômica e espacial (SACHS, 1993), precisa ser verdadeiramente aplicada.

Entendemos que esse processo é bastante complexo, pois envolve problemas estruturais. Por isso, um diálogo amplo e genuíno deve acontecer. Só assim a gente vai conscientizar, quebrar paradigmas, cocriar futuros desejáveis. 

Não haverá transição sem verdadeira colaboração

Nosso olhar para a jornada de sustentabilidade precisa ser diverso e, ao mesmo tempo, coletivo. Especialmente no momento atual, o sucesso de uma empresa depende do sucesso das pessoas e do planeta. É preciso pensar e agir como um ecossistema, interdependente. As ações individuais são importantes, mas não suficientes para atender as necessidades das gerações futuras. 

Precisamos juntos e juntas não só imaginar, mas também refletir e projetar uma nova moda. Mais do que nunca, a saída para enfrentar a crise (econômica e socioambiental) passa por transformarmos de forma sistêmica a maneira como produzimos e consumimos até agora, pela humanização das relações e pela urgência de criar e incentivar políticas públicas que impulsionem mudanças. O momento atual nos convida a repensar modelos, papéis e ações. E a gente acredita que esse é um exercício coletivo, interseccional e urgente.

Cacá W. Camargo é designer, pesquisadora e consultora em moda, sustentabilidade e comunicação estratégica. Graduada em Moda, especialista em Desenvolvimento de Produto, mestre e doutora em Design. Formada em Moda Sustentável pela Central Saint Martins – University of the Arts London.
Jajá Menegotto é redatora, produtora de conteúdo, roteirista, curadora e coordenadora de cursos, feminista. É graduada em comunicação social na PUCRS, fez especialização em Design de Moda na Lisbon School of Design e é mestranda em Ciências Sociais pela PUCRS.
Cacá e Jajá trabalham juntas na Cicla, um núcleo de cocriação, curadoria e estratégia, com foco em sustentabilidade e no protagonismo feminino.

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Referência
SACHS, I. Estratégias de transição para o século XXI: desenvolvimento e meio ambiente. São Paulo: Nobel/Fundap, 1993. 

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