Moda: a acessibilidade deve ser a evolução da sustentabilidade

Publicado em 30 de agosto de 2020

Por Luiza Tamashiro*

A moda sustentável pode e deve reverberar boas práticas e transformar realidades a favor da inclusão social e do meio ambiente. É preciso discutir as perguntas que precisamos fazer e as ações que precisamos tomar, através desse despertar da consciência.

O trabalho na moda tem que ser focado nas pessoas. Capacitar e treinar profissionais nacionais com o olhar não para a inclusão e, sim, para a integração, com foco em dar autonomia para as pessoas com deficiência, mobilidade reduzida, pessoas gordas e idosos, resultando em mão de obra qualificada para desenvolver as atividades pertinentes e com remuneração justa para todos os setores da cadeia (socialmente justo) e um preço acessível para o consumidor final (economicamente viável).

Moda Plural e Design Universal

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Foto: Anna Shvets / Pexels

Moda Plural é a desconstrução da padronização dos corpos e do ideal de beleza. E tem como objetivo mostrar o quanto a raiz estrutural é a questão e o quanto os movimentos: preto, LGBTQIA+, plus size se conversam com o movimento das pessoas com deficiência. Levando em consideração as necessidades físicas, sensoriais, auditivas e olhando de uma forma ampla para a pluralidade de corpos, sem abrir mão da autonomia, do conforto, do design e do estilo, proposta inserida dentro do que chamamos Design Universal.
Design Universal ou Design Inclusivo, que significa “design que inclui” e “design para todos”, é focado nas pessoas, voltado para a criação de produtos, serviços e ambientes para que atendam o maior número de pessoas possível independente de idade, habilidade ou condição.

E visa oferecer praticidade, conforto, autonomia e estilo a quem usa. Inclui a possibilidade de comprar a roupa desejada, independente da condição física, sensorial ou auditiva e usá-la sem a necessidade de fazer adaptações posteriores. E também empodera e eleva a autoestima. Essas ideias se identificam com a proposta do Slow Fashion.

Agenda Positiva

O Slow Fashion preza pelos conceitos de “menos é mais” e “qualidade em vez de quantidade”. É o caminho de volta à essência e também a um comunicar mais prático, mais leve e direto. Afinal, não é porque é prático que quer dizer que tem que ser raso ou feio. Precisamos dessa soma e equilíbrio, em forma de produtos e serviços que cumprem seus propósitos de atender as pessoas independente de idade, habilidade ou condição. Slow Fashion é ir um passo de cada vez e resumem bem as pesquisas de design universal focadas nas pessoas.

O principal exercício que precisa ser colocado em prática é a mudança de mentalidade, pois é preciso entender que as incapacidades das pessoas com deficiência são projetadas, ou seja: trata-se de uma limitação do ambiente, dos objetos e dos produtos à disposição das pessoas. É preciso ter consciência que as pessoas com deficiência são consumidoras e uma grande parcela de um potencial público que não consomem por falta de acesso e isso também para as pessoas idosas e pessoas gordas. 

 

reunião na Universidade Belas Artes desconstrução do padrão de beleza

Último encontro presencial com os alunos de Design de Moda no Centro Universitário Belas Artes cujo objetivo  desconstrução do padrão de beleza e o desenvolvimento do olhar para produtos tendo como foco as pessoas com deficiência. 12/03/2020. Agora os encontros são online. #PraTodosVerem: Foto de 4 mulheres sentadas em cadeiras. Estão em uma roda de conversa. Da esquerda para direita: Vanessa, mulher surda de pele branca, cabelo curto, preto e liso. Ao lado dela Cristiane, mulher com nanismo de pele branca, cabelo loiro, curto e enrolado. Ao lado dela Giovana, mulher com Síndrome de Down de pele branca, cabelo liso, castanho e longo. Ao seu lado Luiza, mulher de pele amarela, descendente de oriental, cabelo curto, liso, está preso num rabo de cavalo e ela usa franja acima da sobrancelha. Estão em uma sala ampla.

 

O primeiro passo para fazer uma coleção de moda sustentável, plural e slow fashion com o uso do design universal, é ouvir as pessoas com deficiência, pessoas gordas e pessoas idosas. Ao entendê-las, começamos a criar e projetar produtos a partir da perspectiva delas. E com isso, boa parte das alternativas criadas surgem de mudanças criativas e simples de elementos que já estavam presentes nas roupas, mas que ganham novas funcionalidades através do olhar para inclusão. A Acessibilidade deve ser a evolução da Sustentabilidade!

As marcas têm que estar abertas a essas novas evoluções para colocar como práticas de sua agenda positiva. Aprender com profissionais e com a pluralidade de pessoas engajadas nas causas para construir discursos e práticas verdadeiras e transparentes. As marcas que tratarem esses temas com superficialidade estão fadadas ao fracasso de suas ações.

Construção em rede: de pessoas para pessoas

Afinal se todo lixo é um erro de design, começar a exercitar o olhar para projetar produtos e serviços unindo a acessibilidade, integração e sustentabilidade é o melhor caminho para se combater a produção de produtos descartáveis.
Acessibilidade e Integração é como um novo hábito que precisa ser praticado até ser integrado ao processo.
Sustentabilidade é sobre pessoas. Não estaremos discutindo sustentabilidade enquanto não integrarmos à todos, todes e todas com equidade!

Para conhecer mais, acompanhe o ReLAB Criativo. Somos uma rede que conecta pessoas com foco nas relações do campo do design, sustentabilidade e a universalização da acessibilidade. Realizamos laboratórios e oferecemos consultorias, treinamentos e workshops.

Luiza Tamashiro é co-fundadora do RELab Criativo e curadora do Brasil Eco Fashion Week. Escritora, pesquisadora, designer e produtor. Atua como consultora educacional.

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