Diversidade na moda e nas passarelas – entrevista com Alê Queiroz

Publicado em 03 de agosto de 2020

Alexandre Queiroz, mais conhecido como Alê Queiroz, é diretor de casting da semana de moda Brasil Eco Fashion Week (BEFW) desde a primeira edição, em 2017. Com sua expertise, ele é o principal responsável por viabilizar diversidade de identidades e de corpos nas nossas passarelas.

Representatividade importa: modelos na passarela da Brasil Eco Fashion Week – semana de moda sustentável e inovadora. Fotos: Agência Fotosite.

Atuando há mais de duas décadas no mercado da moda, Alê Queiroz tem olho clínico, garimpa new faces e vem impulsionando carreiras internacionais. Sua base é o Rio de Janeiro. Na capital carioca ele também trabalha para o mercado publicitário como chefe da divisão de moda e lifestyle da Sherlock Communications. Acompanhe a seguir, a conversa que tivemos com ele: 

ale_queiroz_casting_diversidadeHá quanto tempo trabalha com moda e direção de casting? Poderia citar alguns eventos marcantes?
Trabalho na moda desde 2001. Comecei como assistente de fotografia ao lado de uma fotógrafa italiana Fabiana Albertini que estava no Brasil clicando para a revista GQ de seu país. Logo depois viajei com ela para Paris. O meu primeiro trabalho editorial foi pra Elle France no Rio Sena, um editorial que guardo até hoje com muito carinho, pois a partir dele que as portas da moda se abriram.
A direção de casting veio com o tempo. Depois de assistente de foto trabalhei como assistente de direção de desfiles. Comecei com a produção executiva na revista Vogue Brasil, onde assinei alguns editoriais como produção de moda e algumas capas como stylist. Naquela época eu trabalhava direto com o Giovanni Frasson.

É possível afirmar que o casting dos desfiles do BEFW têm ênfase na diversidade? O histórico da passarela do evento mostra pessoas com deficiência, indígenas, pretas e albinas, com Síndrome de Down, transgêneros, plus size e maduras (cabelos grisalhos).
O casting do BEFW sempre se destacou pela diversidade e inclusão. Tivemos todos os tipos e gêneros (se assim podemos classificar). Trabalhamos com muito prazer e envolvimento, pois sempre foi uma preocupação das marcas e também do evento. Em alguns casos, estas pessoas foram convidados da marca e tiveram o mesmo trato e comprometimento como um modelo selecionado por agência. 

Como o casting do BEFW o desafiou profissionalmente? Poderia citar diferentes belezas que você validou na passarela da semana de moda sustentável, e algumas estreias?
O casting do BEFW na primeira edição me desafiou, e muito, em termos de trabalhar com 40/45 modelos com uma verba pequena para tantos dias. Mas em parcerias com importantes agências, como a Mega Models, Another Agency, Rock Mgt, Base Mgt, Casting Development , Fox Mgt e Joy Models Mgt, conseguimos fazer um casting tão lindo como de uma semana de moda internacional.

Tivemos estreias no BEFW, sim. E de meninas que hoje se destacam no cenário internacional: 

  • Mariana Barcelos (Casting Development ): Desfiles como Chanel, Miu Miu, Prada, Lacoste, Jacquemus entre outros;
  • Laiza Moura (Fox Mgt): Desfiles YSL , Dries Van Noten, entre outros nas semanas de moda internacionais;
  • Iris Camilo (Another Agency): está trabalhando na Europa.

Como foi acompanhar profissionalmente esta mudança no mercado da moda em relação à inclusão?
Com relação a inclusão ela sempre aconteceu em meus castings. Já assinei desfile do Walter Rodrigues no Fashion Rio com 30 modelos negras, numa época em que poucas meninas negras despontavam nas passarelas. Fiz desfile do Ronaldo Fraga onde escolhemos apenas idosos e crianças, outro desfile onde tivemos muitos albinos, e que hoje estão em muitos castings.
Eu citaria que o maior desafio foi produzir um dos desfiles mais emocionantes da minha carreira, para o Ronaldo Fraga. Visitei associações de refugiados e conheci várias etnias. Foi uma grande emoção quando eles foram para a passarela — numa época em que muito se falava sobre a ajuda humanitária (o desfile destacava assuntos como refugiados da guerra civil do Burundi, na África e também refugiados da guerra da Síria).
Acredito que houve no início um certo “desconforto” sobre a inclusão, mas hoje é muito válida e super respeitadas por muitas marcas.

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Diversidade de identidade e de corpos no casting da semana de moda BEFW. Fotos: Agência Fotosite.

Em geral as marcas têm interesse na diversidade, ou não?
Sim, a diversidade hoje é muito forte em todos os castings que atuo. Sempre a pedido do stylist, ou mesmo da equipe de estilo.
A modelo Plus Size, ou mesmo Curve, tem hoje um nicho fortíssimo dentro da indústria da moda. E muitas delas trabalham mais do que muitas modelos fashion. Citaria também a inclusão dos modelos com deficiência*.

A diversidade é forte em todos os casting que atuo. A modelo Plus Size, ou mesmo Curve, tem hoje um nicho fortíssimo dentro da indústria da moda. Citaria também a inclusão dos modelos com necessidades especiais.

Como é feita a abordagem por casting diverso e inclusivo, e como você atua para solucionar esta demanda? Lembrando que para o BEFW, uma equipe com um “mix” de modelos é escalada, com base nas demandas de todas as marcas juntas.
Tento sempre casar um equilíbrio pois, se atendo a um evento como o BEFW, tenho que lembrar que algumas marcas têm essa demanda, e outras não. Se eu atendo apenas um lado, o outro sempre vai reclamar e me deixar de cabelo em pé (sorri). 

Diretor de casting Ale Queiroz no backstage semana de moda sustentavelVocê se sente na posição de educador em relação a como podemos entender a beleza e os padrões da moda? Há espaço de diálogo sobre a diversidade para esta abordagem entre os clientes da indústria da moda e da confecção?
Diria que sim, acho que muitas das vezes enxergamos beleza em meninas que a marca demora a entender. Isso acontece muito no Brasil, especificamente comigo. Escolho a modelo, ela faz um trabalho e depois viaja pro exterior, faz sucesso e muitos esquecem que ela começou aqui com o nosso olhar, ou diria, meu olhar, foram tantas…

Como diretor de casting você observa e destaca alguma tendência estética que ganha cada dia mais relevância, assim como a beleza das pessoas pretas? Recentemente, vimos a Gucci escolher para representar na linha beauty, Ellie Goldstein, de 18 anos, a primeira modelo com síndrome de Down em uma campanha.
Acho que existe uma predominância geral de todos os estilos inclusive aqueles que mais se destacam no quesito atitude. Sobre pessoas pretas, elas sempre existiram pra mim, e inserir as mesmas hoje em dia seria redundância em castings que assino com tanto prazer!

O circuito internacional segue atento às belezas brasileiras? Como definiria essa beleza nacional (se é que poderia ser definida)?
Diria que o circuito esta atento a belezas globais, vide a Louis Vuitton com tantas modelos orientais, e inteligentes atendendo a um mercado tão forte como os da Ásia.

 

1 Comentário

  1. Cristiane Mayworm

    Amei esse texto e acho muito importante sim a visão e o esclarecimento da diversidade em todos os setores, principalmente na moda onde vemos muito pouco todos os tipos de corpos e pessoas como modelos representam o mundo fashion. Esse conceito é essencial para uma moda consciente, e que abraça todas as pessoas em sua totalidade.
    Nota, na frase do texto: Citaria também a inclusão dos modelos com necessidades especiais…. lê-se “modelos com deficiência”, novo vocabulário desde a convenção da ONU.
    Parabéns pelo seu trabalho, muito lindo mesmo. Que o BEFW 2020 seja mais um grande palco da diversidade, beleza brasileira e corpo livre.

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